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Maestro Rui Picado

por NG, em 02.05.16

Rui.jpg

 

Ofereceu-me um xilofone antes de eu aprender a ler.

A minha mãe era muito amiga da Teresinha, a sua esposa. Tinham nascido e crescido na mesma aldeia, à beira do Codes. Sempre que se reencontravam, transpiravam satisfação e alegria. Creio que o seu foi o primeiro casamento a que fui, pequenito, aí com 3 ou 4 anos de idade. Tenho aí as fotografias.

Quando acabei o curso, em Lisboa, e voltei para Abrantes, convidou-me para fazer parte do coro. Ouviu a minha colocação de voz e disse, resoluto: és tenor.

Ao longo de vários anos, nos ensaios das terças e sextas, à noite, aprendi, ou, pelo menos, o Rui ensinou, cantando, a linguagem própria para lidar com o que interessa nesta vida, o que sentimos, o amor, a consciência, a atenção, a beleza, a simplicidade, o transcendente, o fim.

Não foram poucas as vezes que os olhos se encheram deslumbrados. Com Fernando Lopes Graça, em primeiro lugar, Filipe de Magalhães, Janequin, Kodaly e tantos outros, descobri, ou achei que podia descobrir, a alegria de viver, de ter nascido e crescido onde nasci e cresci, a vontade de procurar a esperança. Muitas melodias e palavras entraram pelos ouvidos, cabeça adentro, para nunca mais sair. Vêm à superfície e à garganta, quando lhes apetece, ora para iluminar o olhar, ora para enterrar agruras. São companhia fiel.

Do que gostava mais era dos ensaios. Mas também apreciei as viagens, Hungria, Espanha, os encontros anuais com os colegas dos outros coros do Alto Ribatejo, os concertos na Igreja da Misericórdia ou em São Vicente, o contraste entre o afã ridículo da troca de roupa e o imediato desempenho das 40 vozes numa acústica solene.    

Quando entramos na Igreja, para celebrar o nosso casamento, o Rui estava lá, orientando, com glória e magestade, o Jesus bleit mein freund. A seguir, cantamos o Panis Angelicus. O coro, em peso, não parou de cantar durante a boda. Foi uma festa colossal.

Não o via há uns 8 anos, desde que deixamos Abrantes, o coro e Portugal. Falávamos, às vezes, por skype. A última foi quando a Teresinha nos deixou, há um par de meses.  

A morte do Rui é um rasgar de folha do livro que guarda as coisas que me fizeram feliz.  

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publicado às 23:30



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